O que você realmente vê?

Viagem

O sol era doce contra as minhas bochechas e a brisa suave fazia sensações estranhas se espalharem pelo meu corpo. A areia fina da praia era um tapete macio sob o meu corpo e por um momento eu apenas me deixei afogar na sua intensidade. O som das ondas invadia meus tímpanos acalmando a euforia que me acompanhava desde sempre.

Levantei-me para observar o movimento na praia por entre meus óculos escuros. Poucas pessoas caminhavam deixando as ondas banharem seus pés, abençoando-os de alguma forma. Deixei meus olhos vagarem por entre os transeuntes e tive minha atenção furtada por um casal de senhores que caminhava a passos lentos, como se cada momento ali fosse precioso demais para ser perdido com o desespero. Seus olhos sorriam conforme se olhavam, a mão preciosamente segura uma na outra e o ritmo dois era um só como se tivessem sido programados para estar lado a lado ou feitos sob o mesmo modelo.

Coloquei-me a pensar o que de fato eu havia visto naqueles pequenos gestos. Amor? Obviamente que ali existia. E muito. Mas, o que de fato é o amor? Sempre pensei nele como aquela euforia que nos preenche e aquela calmaria que nos conforta. Contrastes. Mas, vendo aquele casal, tento entender se o amor não é um intrigante quebra cabeças no qual descobrimos as peças aos poucos – conforme descobrimos a nós mesmos – e no qual cada uma delas representa algo que colocamos, algo que tiramos, algo que nos acrescenta.  Porque o amor não pode ser posse, visto que pertencemos apenas a nós mesmos. Nem submissão. Ele é igualdade e respeito. É o forte que se torna fraco. É o pequeno que torna grande. É aquela mistura de cores e gêneros. É saber cair e levantar e também ser levantado.

Talvez por isso sejam poucos aqueles que podem vê-lo. Senti-lo. Estamos sempre tão preocupados em mostrar coisas para o outro, em ser melhor que os outros que nos esquecemos de nós mesmos. Das nossas relações, da nossa vida.

Talvez o amor seja como um dia fazendo algo fora do comum. Enquanto alguns se preocupam em viver suas rotinas programadas, em obter para ostentar, outros se permitem aventurar sem si mesmos, viver outras coisas. Amar. Porque são nessas estradas inusitadas que encontramos a nós mesmos e qual a melhor forma de saber do que somos capazes do que nos conhecendo?

Ou talvez o amor seja como um dia de sol. Enquanto alguns se preocupam em evita-lo outros tentam sentir sua intensidade. Saem para a varanda, deitam-se na areia na praia, caminham pelas ruas vendo o que ninguém vê. Procurando o que ninguém consegue encontrar. Talvez o amor seja para os loucos. Talvez os loucos sejam os verdadeiros sãos.

Cambaleei um pouco ao me levantar da areia. As ideias preenchiam minha mente depois daquele pequeno descanso na praia. Não consegui deixar de sorrir e agradecer por ter trocado o dinheiro do celular que eu tanto ansiava por esse pequeno momento só meu. Eu ainda podia trabalhar e pensar em compra-lo posteriormente, mas o que vivi nesses pequenos instantes era raro demais para se repetir. E as férias estavam apenas começando.

Autora: Erica Azevedo 

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Caminhos

“E são nessas estradas da vida que a gente se encontra. Esbarramos em sorrisos, tropeçamos em olhares, mergulhamos em conversas e descobrimos que o mundo pode nos oferecer um emaranhado de amizades que nunca poderíamos imaginar.”

Erica Azevedo

Escritos #3: Mudanças

Seus olhos abriram devagar. O mesmo ritual de sempre. A mesma canção: o choro descontrolado. Não havia pressa para atender, ou pelo menos para tentar consolar. Era a mesma história de sempre, o mesmo conflito de todos os dias. E aquela semana estava apenas começando.

Segunda-feira.

Escutou o pai gritar algo da sala enquanto aumentava a TV tentando abafar os sons que vinham da mulher em desespero. Conseguiu identificar algumas palavras em meio a chuva de palavrões. Coisas como “ir embora”, “não me ajuda em nada” e derivados. Coisas comuns a rotina da casa, algo que ele vinha acompanhando desde pequeno.
Os soluços recomeçaram na sala, acompanhados de uma onda de indignação. Já era previsto que isso aconteceria. Uma reação direta ao descaso.
Fechou os olhos e tentou pensar em outras coisas. Só faltavam três horas para ir ao trabalho e, com um suspiro pesado, pensou no quão difícil o dia seria.
Escutou o barulho de algo se chocando e com o coração disparado correu para verificar o que era. O pai havia esbarrado na tábua de passar.

Alívio.

Lembrou-se de quando, há algum tempo, este mesmo senhor esbarrava em brigas de porta de bar e em como carregava todo o sofrimento da família nas costas. Desnecessário. Sempre o foi. Sentiu um aperto ao pensar nisso, seu estômago se retorcia com a raiva. As vezes as lembranças doem mais do que o presente. Seria esta uma constatação da melhora das coisas ou apenas de uma forma diferente de encará-las?

– Amanhã eu trabalho, só para lembrar – gritou enquanto voltava para o quarto, sabendo que mais uma vez seria ignorado.

Ao deitar, se encolheu na cama como que tentando se defender. O travesseiro bem apertado contra o ouvido e um desejo insano de que o sono viesse logo.

Ele enfim veio.

Acordou minutos depois, a respiração entrecortada, o coração apertado.

– Está tudo bem, querido? – reconheceu a voz doce que ressoou ao seu lado.

– Está sim, amor. Foi apenas um sonho – conseguiu responder, voltando para a realidade.

– Volte a dormir. Você terá um dia especial amanhã. Todos vão adorar sua tese de pós doutorado – e a mulher adormeceu enquanto o abraçava.

– Dia especial – sussurrou em meio ao silêncio, lembrando-se do tempo em que mesmo a faculdade era um sonho que parecia distante.

Deixou-se submergir em pensamentos enquanto constatava o quanto os sonhos, as vezes, podem ser janelas para aquilo que queremos esquecer. Seus olhos vidrados no teto o levavam para um lugar distante enquanto adormecia e constatava que a estrada pela qual ainda tinha que percorrer não poderia ser mais árdua do que a que já havia percorrido.

Autora: Erica Azevedo

O que você realmente vê?

Pergunta 

O som do despertador ressoou em minha mente e eu me vi arrancada de um sonho turbulento. Ergui o braço para pegar o celular na mesinha de cabeceira e um desejo profundo tomou conta de mim.

“Por favor, que eu o tenha adiantado como da última vez”.

Forcei meus olhos cansados a enxergar os números não desejosos. Nunca foi tão ruim encontrar aquele pequeno cinco brilhando como se o despertar fosse a melhor parte do dia. Não, não era. Eu só havia dormido quatro horas e minha bateria não tinha sido recarregada totalmente e isso era algo que eu carregaria ao longo do dia, como uma ferida aberta que teima em arder.

Pulei da cama sabendo que perder o horário significaria também perder horas no trânsito. Nesses longos 21 anos que me dedico a essa cidade de contrastes chamada São Paulo, fui programada diariamente para respeitar suas regras de sobrevivência e a mais vital delas é a de que cada 10 minutos perdidos em sonos prolongados vira uma hora de trânsito indesejado.

Desenterrei as últimas fatias de pão de forma do armário e finalizei o suco que restou do jantar da noite anterior agradecendo por não ter que me preocupar em fazer um café. Lancei uma última olhada no espelho antes de sair e não pude deixar de notar que a minha aparência vem se tornando cada vez mais esquisita. Talvez a quantidade de estresse pela qual venho passando esteja se tornando cada vez mais visível, afinal, trabalhar, estudar, badalar e desejar custa tempo, dinheiro e saúde. Ou talvez seja a minha preocupação com a solteirice que esteja se tornando evidente. Sejam quais forem os fatores, constato que preciso dar um basta imediatamente neles.

Minha pequena reflexão no espelho do banheiro de casa quase me faz perder o ônibus do horário de sempre e isso me causaria, além de uma pequena tentativa de explicação ao chefe, alguns momentos de hora extra. O que não seria bem vindo ao momento. Corre um boato na empresa de que a partir do próximo mês ao invés das horas serem descontadas no nosso horário de trabalho, começaremos a receber por elas. Com isso poderei economizar para ter aquele celular novo, top de linha, que está para sair. Claro, também estou contando com as preciosas prestações que vou conseguir com o meu novo cartão crédito, mas isso eu deixo para uma próxima.

Já estou saindo do trabalho e a caminho da faculdade quando alguém me entrega um pequeno folheto. Ela era apenas mais uma daquelas pessoas que tentam atrapalhar a nossa rotina quando se está atrasada para algum compromisso, tentando demonstrar o quão importante pode ser um pedaço de papel, que, muitas vezes, apenas se resume a algum contato de dentista ou algum daqueles “compre a armação dos óculos e ganhe o exame grátis”.

O guardei no bolso do casaco e o teria esquecido, não fosse o meu desespero em encontrar a chave de casa duas horas depois e já na faculdade. Mas, em meio a esse meu momento de desespero, tomei o cuidado de reparar no pequeno pedaço de papel pardo e com apenas uma frase em letras garrafais:

“O que você realmente vê?”

Fiquei alguns minutos tentando absorver aquela pergunta absurda e ao mesmo tempo entender o porquê de uma senhora na rua se dar ao trabalho de me atirá-la. Foram longos minutos de indagação até um pensamento me assolar: Quem era a senhora que me deu esse papel?

Senti uma palpitação estranha em meu peito e até mesmo cheguei a pensar que estava ficando louca. A verdade é que eu nem ao menos cheguei a reparar na senhora ou poderia até ser um senhor, uma criança, um jovem… A verdade é que eu nem ao menos lembro seu rosto ou se chegou a me dizer alguma palavra.

Tentei refazer mentalmente o meu caminho até o trabalho, buscando rostos, situações, formulando labirintos na minha mente abarrotada e ao mesmo tempo deserta. O esforço chegou mesmo a fazer uma dor latejar contra a minha têmpora e a massageei por um tempo buscando alívio.

Nunca pude chegar a pensar que uma pergunta me fizesse ir tão longe dentro da minha mente. Porque a partir do momento que constatei que tenho vivido na superfície das relações, comecei a averiguar meus laços que julguei mais profundos, como relacionamentos, e até que ponto de fato os vivi. E me permiti ir mais longe. Fiz uma varredura sobre a minha postura como individuo, como cidadã, como um ser ativo e em nenhum momento a pergunta deixou de ressoar:

“O que você realmente vê?”

 

Autora: Erica Azevedo 

#Fanfiction

“Nos tornamos amigos por inconveniências. Eu lhe estendia a mão e você a ignorava”

Lembranças: algo terrível ou algo sagrado?”

“Vingança: aquilo que transforma homens em monstros e pessoas inocentes em vitimas”

Amor: aquele que pode trazer pessoas a vida.

“Morte: aquela que lhes tira o amor”

Por: Erica Azevedo

Escritos #2: Estrada

Eu caminhei por caminhos desconhecidos sem ter medo de cair. E quando isso acontecia, eu me colocava de pé e mais uma vez buscava o horizonte. Lá onde a lua e o sol se escondem. Onde o tempo passa lentamente e se encontram os maiores segredos da humanidade.

Eu busquei o infinito, eu corri atrás do incerto. Meus passos deixaram marcas pelo presente, tornando-as lentamente passado. E assim como as ondas do mar apagam as pegadas marcadas na areia, o tempo veio como um tormento, forte e uivante, fazendo com que estas fossem transformadas em lembranças.

Eu busquei o melhor. Eu me fiz melhor. E retirei todas as pedras do meu caminho, calejando as minhas mãos. Eu senti frio e fome. Eu senti medo e tive esperança. Eu me desesperei e me acalmei. E todas as coisas as quais sofri deixaram marcas, conhecimentos, particularidades.

Eu tive sonhos e pesadelos. Tristezas e alegrias. Venci e fui vencido. Mas aprendi que um sonho só acaba quando não há mais espetáculo, quando não há mais emoção, não há força para lutar.

Eu corri o mais longe que pude e fui jogado de volta ao começo. Eu trapaceei e fui trapaceado. Ajudei e fui ajudado. Amei e fui amado. Eu sorri. Eu me coloquei no lugar dos outros, os incentivei e fui incentivado. Eu cheguei o mais longe que pude. E quando me coloquei diante de todos aqueles que duvidaram, eu disse: Eu venci. E então tudo se apagou.

Autora: Erica Azevedo

Escritos #1: Olhar para o mar.

Um olhar para o infinito, além das ondas que quebram nas rochas beira mar. É um constante espetáculo de vem e vai. É algo sublime, algo natural, assim como os dias que passam despercebidos em meio a realidades diferentes. Uma visão primorosa sendo observada por alguém que tenta encontrar naquele momento respostas para os conflitos gerados pelo simples ato de viver. Inconstantes sentimentos que confundem a razão e fazem com que esta se torne apenas mais uma escrava dos momentos místicos que nos cercam. Amar é uma inconstância. Assim como as ondas do mar que não saem de seu ritmo, o amor trás momentos de dor e de alegria, que ressecam e alagam a alma, que abriga e subtrai coisas boas e ruins e as transformam em constantes experiências. Assim como o mar que se banha com a luz do luar todas as noites ou suga as lágrimas que as nuvens derramam sobre ele, o amor trás a perspectiva de algo novo, completo, sublime, irreal, a dor e a alegria lado a lado em um balé de misticismo sem explicação que confunde a mente até dos mais céticos. A imagem do infinito, um horizonte além do esperado, algo mais, além, nos coloca em uma busca pelo novo, por fugas da realidade ou apenas por respostas a todas as perguntas que perfuram a alma e nos passam a imagem do incerto, do inseguro. Assim como olhar para o mar é sonhar, amar é olhar para o mar.

Autora: Erica Azevedo 

First Step: Começo!

O começo é sempre a parte mais difícil, na minha sincera opinião. Ele está sempre envolto em uma cortina de incerteza e navegando em um mar de dúvidas. Sendo assim, coloco como axioma que “o princípio é um limite a ser transposto”. Obviamente não estou deixando de lado os conflitos que permeiam o “durante” e o “depois”, mas sempre achei que a introdução é a parte que precisa de uma atenção especial, ainda mais sendo esta a que mais me coloca a pensar.

Não estou considerando que este ponto de vista seja uniforme a todos, estou apenas relatando as dificuldades que encontro para transpor essa barreira inicial, ainda mais porque em tudo que faço na vida, desde que começo, o ponto final se torna um objetivo a ser alcançado.

Por: Erica Azevedo